domingo, 23 de dezembro de 2012

CICLO DO NATAL: MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO


CICLO DO NATAL: MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO


Celebração: TEMPO DO NATAL

Natividade e imposição do Nome de Jesus

O tempo do Natal começa com as primeiras vésperas do natal, a 24 de dezembro, e termina com a Oitava do Natal, que lembra a Circuncisão e imposição do Nome de Jesus.
Até princípios do século III, a festa do Natal era celebrada, no Oriente, a 6 de janeiro, como início das manifestações de Jesus. Em Roma, fixou-se no Natal no dia 25 de dezembro, e isso já na primeira metade do século IV; quando aí foi introduzido, com toda probabilidade ignorava-se a comemoração oriental. Escolheu-se em Roma o dia 25 de dezembro com o intuito de afastar os fiéis do perigo de idolatria, pois esse dia era consagrado, com grandes pompas, ao deus Mitra, o “Sol Invicto”.
COMENTÁRIO DOGMÁTICO. – O Tempo do Natal celebra o mistério da Encarnação nas várias manifestações de Jesus ao mundo. Nos vinte dias desse período, a Igreja comemora as várias etapas da infância e vida oculta do Salvador: a Natividade (25 de dezembro), a Circuncisão (na Oitava, a 1º de janeiro – no antigo calendário litúrgico, atualmente é a Festa de Santa Maria Mãe de Deus), o encontro com Simeão e Ana (domingo depois do Natal – também no calendário anterior a Reforma Litúrgica), e a fuga para o Egito ( 28 de dezembro, Festa dos Santos Inocentes).
            ENSINAMENTO ASCÉTICO.  – Os exemplos do Menino Jesus nos animam à pobreza de espírito e ao desapego das vaidades e glórias do mundo; movem-nos à mortificação com a fuga das comodidades e prazeres corporais; arrastam-nos enfim à união íntima da inteligência, da vontade e do coração com Jesus Cristo.
            Os mistérios do Natal apresentam-se, diante de nós, com caráter profundamente familiar: Deus é nosso Pai, Maria é nossa Mãe, e Jesus é nosso irmão maior. A convicção de que Deus mora em nós, e nós vivemos nele, de que a nossa santificação se efetua com os atos normais e simples da vida diária, devem suscitar em nós o espírito de completo e total abandono em Deus e de infância espiritual. Ao mistério da Encarnação devemos corresponder com inabalável, amor ilimitado e gratidão filial.
            CARÁTER LITÚRGICO. – A nota predominante do Tempo do Natal é a alegria, que os anjos anunciaram aos pastores e que o hino próprio do Natal, o Glória in excelsis, canta expressivamente.
Sentimo-nos elevados com as melodias e funções desse dia sagrado, e com a cena singela e comovente do presépio, ideia feliz se São Francisco de Assis, que o inaugurou pela primeira vez em 1223.
             

(Fonte: Missal Romano Cotidiano, Edições Paulinas, 1964, pág. 77)









A DIVINA MATERNIDADE DE MARIA VIRGEM

O Natal é a verdadeira festa da divina Maternidade, lembrada também a 1.º de janeiro e festejada a 11 de outubro (grifo nosso: antigo calendário litúrgico).
            Jesus Cristo nasceu de Maria Virgem, a qual, por isso, se chama e é a verdadeira Mãe de Deus. Como a mulher é chamada e é verdadeira mãe da pessoa do filho, mesmo não lhe comunicando a alma (criada imediatamente por Deus), mas somente o corpo, assim a Virgem, dando a matéria corporal ao Verbo, por obra do Espírito Santo (o qual conferiu ao seio da Virgem a fecundidade, sem a intervenção do homem), tornou-se a verdadeira Mãe de Deus.


(Fonte: Missal Romano Cotidiano, Edições Paulinas, 1964, pág. 83)





A ENCARNAÇÃO

A segunda Pessoa da SS. Trindade, isto é, o Filho, encarnou-se e se fez homem para nos salvar, a saber, para nos remir do pecado e reconquistar-nos o Paraíso.
Jesus Cristo fez-se homem tomando um corpo e uma alma, como temos nós, no seio puríssimo de Maria Virgem, por obra do Espírito Santo. Ele fazendo-se homem, não deixou de ser Deus, mas permanecendo verdadeiro Deus, começou a ser também verdadeiro homem.
Em Jesus Cristo há duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana, unidas na única pessoa divina (união pessoa ou hipostática) do Filho de Deus. Ele, tendo a natureza divina e a natureza humana, opera como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Jesus Cristo, como Deus, sempre existiu: como homem começou a existir no momento da concepção.


(Fonte: Missal Romano Cotidiano, Edições Paulinas, 1964, pág. 87)




OS FRUTOS DO NATAL

O mistério do Natal é um admirável comércio entre a divindade e a humanidade. Primeiro comércio: o homem oferece ao Filho de Deus sua natureza humana e o Verbo recebe esta natureza que assume e une a si, numa união pessoal. Segundo comércio: Jesus torna o homem participante de sua natureza divina e o torna filho de Deus.
            Por isso, no homem há duas vidas: a vida natural e a vida sobrenatural da graça que eleva e aperfeiçoa a natural.
            A Encarnação torna-nos Deus visível em todas as suas perfeições: e nós o podemos ouvir e imitar; torna Deus passível, capaz de expiar os nossos pecados com seus sofrimentos e de curar-nos com suas humilhações.
            Jesus “nasce num estábulo do Belém e ergue o próprio trono e a própria cátedra numa manjedoura. Deste lugar o Salvador condena o fausto, a soberba, a sensualidade” (Cardeal Schuster) e cura o nosso orgulho com sua obediência e humildade; nossa ambição de riqueza com sua pobreza, nossa concupiscência da carne com sua penitência, mortificação e pureza.


(Fonte: Missal Romano Cotidiano, Edições Paulinas, 1964, pág. 92)



OS BENEFÍCIOS DA REDENÇÃO

            O homem foi criado num estado feliz com o altíssimo destino de ver e gozar eternamente a Deus, com o dom da graça santificante e com os outros dons superiores à natureza humana. Esses dons são: a isenção da ignorância (ciência infusa), a isenção das fraquezas e misérias morais, causadas pelas paixões desregradas (integridade), a isenção das dores e das enfermidades (impassibilidade) e a isenção da necessidade de morrer (imortalidade).
            Todos estes dons foram condicionados a uma prova. Adão e Eva, provando o fruto proibido, cometeram um grave pecado de soberba e desobediência; despojaram-se a si mesmos e a todos os homens da graça e de todos os outros dons sobrenaturais, sujeitando-os ao pecado, ao demônio, à morte, à ignorância, às más inclinações e a todas as outras misérias e excluindo-os do paraíso.
            A obra da Encarnação e da Redenção, realizada somente por amor por Jesus Cristo e (secundariamente) por Maria SS., reergueu o homem do pecado e o recolocou, de certo modo, num estado melhor do que anterior à queda. De fato, tornou o homem filho de Deus, irmão de Jesus Cristo e herdeiro do paraíso, e restituiu-lhe a graça santificante, com cortejo das virtudes infusas e dos dons do Espírito Santo e das graças atuais. Mas a Redenção não restitui logo ao homem os dons pré-naturais: a ciência e a integridade, que ele pode conseguir de modo progressivo, a impassibilidade e a imortalidade, reservadas à vida eterna.
            Nas enfermidades, nas provações e na luta contra a concupiscência temos muitas ocasiões para imitar os exemplos de Jesus, adquirir as virtudes e aumentar os méritos para o paraíso.


(Fonte: Missal Romano Cotidiano, Edições Paulinas, 1964, pág. 96)


O BATISMO
            A Circuncisão, que na Antiga Lei purificava do pecado, era figura do Batismo.
            O Batismo é o sacramento que nos faz cristãos, isto é, seguidores de Jesus Cristo, filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros do Paraíso. Além disso perdoa o pecado original e os atuais (se  houver), com toda dívida de pena, confere a primeira graça santificante e a graça sacramental, infunde as virtudes sobrenaturais e os dons do Espírito Santo, imprimir o caráter e torna capaz de receber os outros Sacramentos.
            Matéria do Batismo é a água natural, benta no Sábado Santo. Confere-se o Batismo derramando (por três vezes) a água na cabeça do batizando e dizendo ao mesmo tempo as palavras (forma): “Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.
O Ministro ordinário do Batismo solene é o sacerdote, o extraordinário é o Diácono; mas em caso de necessidade, isto é, em perigo de morte, qualquer pessoa (mesmo herege e infiel), pode e deve batizar, contanto que tenha a intenção de fazer o que faz a Igreja.
A criança deve ser batizada dentro de oito ou dez dias depois do nascimento.


(Fonte: Missal Romano Cotidiano, Edições Paulinas, 1964, pág. 113)

Catequese de Bento XVI: A fé de Maria - 19/12/2012


CATEQUESE – A FÉ DE MARIA

Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Queridos irmãos e irmãs,

No caminho do Advento a Virgem Maria ocupa um lugar particular como aquela que de modo único esperou a realização das promessas de Deus, acolhendo na fé e na carne Jesus, o Filho de Deus, em plena obediência à vontade divina. Hoje, gostaria de refletir brevemente convosco sobre a fé de Maria a partir do grande mistério da Anunciação.

            “Chaîre kecharitomene, ho Kyrios meta sou”, “Alegra-te, cheia de graça: o Senhor é convosco” (Lc 1, 28). São estas as palavras – reportadas pelo evangelista Lucas – com as quais o arcanjo Gabriel se dirige a Maria. À primeira vista, o termo chaîre, “alegra-te”, parece uma saudação normal, como era usual no âmbito grego, mas esta palavra, se lida a partir da tradição bíblica, adquire um significado muito mais profundo. Este mesmo termo está presente quatro vezes na versão grega do Antigo Testamento e sempre como anúncio de alegria pela vinda do Messias (cfr Sof 3,14; Gl 2,21; Zc 9,9; Lam 4,21). A saudação do anjo a Maria é também um convite à alegria, a uma alegria profunda, anuncia o fim da tristeza que há no mundo diante das limitações da vida, do sofrimento, da morte, da maldade, da escuridão do mal que parece obscurecer a luz da bondade divina. É uma saudação que marca o início do Evangelho, da Boa Nova. 

Mas por que Maria é convidada a alegrar-se deste modo? A resposta está na segunda parte da saudação: “o Senhor está convosco”. Também aqui para compreender bem o sentido da expressão devemos dirigir-nos ao Antigo Testamento. No Livro de Sofonias encontramos esta expressão “Alegra-te, filha de Sião... Rei de Israel é o Senhor em meio a ti... O Senhor, teu Deus, em meio a ti é um salvador poderoso” (3,14-17). Nestas palavras há uma dupla promessa feita a Israel, à filha de Sião: Deus virá como Salvador e habitará em meio ao seu povo, no ventre da filha de Sião. No diálogo entre o anjo e Maria realiza-se exatamente esta promessa: Maria é identificada com o povo escolhido por Deus, é verdadeiramente a Filha de Sião em pessoa; nela se cumpre a esperada vinda definitiva de Deus, nela toma morada o Deus vivente.

Na saudação do anjo, Maria é chamada “cheia de graça”; em grego o termo “graça”, charis, tem a mesma raiz lingüística da palavra “alegria”. Também nesta expressão esclarece-se a fonte de alegria de Maria: a alegria provém da graça, provém, isso é, da comunhão com Deus, do ter uma conexão tão vital com Ele, de ser morada do Espírito Santo, totalmente moldada pela ação de Deus. Maria é a criatura que de modo único abriu a porta a seu Criador, colocou-se em suas mãos, sem limites. Ela vive inteiramente da e na relação com o Senhor; está em atitude de escuta, atenta a acolher os sinais de Deus no caminho do seu povo; está inserida em uma história de fé e de esperança nas promessas de Deus, que constitui o cerne da sua existência. E se submete livremente à palavra recebida, à vontade divina na obediência da fé.

O Evangelista Lucas narra a história de Maria por meio de um fino paralelismo com a história de Abraão. Como o grande Patriarca é o pai dos crentes, que respondeu ao chamado de Deus a sair da terra onde morava, da sua segurança, para iniciar o caminho para uma terra desconhecida e possuindo somente a promessa divina, assim Maria confia com plena confiança na palavra que lhe anuncia o mensageiro de Deus e se torna modelo e mãe de todos os crentes.

Gostaria de destacar um outro aspecto importante: a abertura da alma a Deus e à sua ação na fé inclui também o elemento das trevas. A relação do ser humano com Deus não apaga a distância entre o Criador e a criatura, não elimina o que afirma o apóstolo Paulo frente à profundidade da sabedoria de Deus: “Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos” (Rm 11,33). Mas propriamente aquele que – como Maria – está aberto de modo total a Deus, vem a aceitar a vontade divina, também se é misterioso, também se sempre não corresponde ao próprio querer e é uma espada que transpassa a alma, como profeticamente dirá o velho Simeão a Maria, no momento no qual Jesus é apresentado no Templo (cfr Lc 2,35). O caminho de fé de Abraão compreende o momento de alegria pela doação do filho Isaac, mas também o momento de treva, quando precisa ir para o monte Moria para cumprir um gesto paradoxal: Deus lhe pede para sacrificar o filho que havia acabado de lhe dar. No monte o anjo lhe ordena: “Não estenda a mão contra o menino e não lhe faça nada! Agora sei que tu temes a Deus e não me recusaste o teu filho, o teu unigênito” (Gen 22, 12); a plena confiança de Abraão no Deus fiel às promessas não é menor mesmo quando a sua palavra é misteriosa e difícil, quase impossível, de acolher. Assim é para Maria, a sua fé vive a alegria da Anunciação, mas passa também pelas trevas da crucificação do Filho, para poder chegar à luz da Ressurreição.

Não é diferente também para o caminho de fé de cada um de nós: encontramos momentos de luz, mas encontramos também momentos no qual Deus parece ausente, o seu silêncio pesa no nosso coração e a sua vontade não corresponde à nossa, àquilo que nós queremos. Mas quanto mais nos abrimos a Deus, acolhemos o dom da fé, colocamos totalmente Nele a nossa confiança – como Abraão e como Maria – tanto mais Ele nos torna capazes, com a sua presença, de viver cada situação da vida na paz e na certeza da sua fidelidade e do seu amor. Isso, porém, significa sair de si mesmo e dos próprios projetos, para que a Palavra de Deus seja a luz que guia os nossos pensamentos e as nossas ações.

Gostaria de concentrar-me ainda sobre um aspecto que emerge nas histórias sobre a Infância de Jesus narrada por São Lucas. Maria e José levam o filho a Jerusalém, ao Templo, para apresentá-lo e consagrá-lo ao Senhor como prescreve a lei de Moisés: “Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor” (cfr Lc 2,22-24). Este gesto da Sagrada Família adquire um sentido ainda mais profundo se o lemos à luz da ciência evangélica de Jesus aos 12 anos, depois de três dias de busca, é encontrado no Templo a discutir entre os mestres. As palavras cheias de preocupação de Maria e José: “Filho, por que nos fez isso? Teu pai e eu, angustiados, te procurávamos”, corresponde à misteriosa resposta de Jesus: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai? (Lc 2,48-49). Isso é, na propriedade do Pai, na casa do Pai, como o é um filho. Maria deve renovar a fé profunda com a qual disse “sim” na Anunciação; deve aceitar que na precedência havia o Pai verdadeiro e próprio de Jesus; deve saber deixar livre aquele Filho que gerou para que siga a sua missão. E o “sim” de Maria à vontade de Deus, na obediência da fé, repete-se ao longo de toda a sua vida, até o momento mais difícil, aquele da Cruz.

Diante de tudo isso, podemos nos perguntar: como pode viver Maria este caminho ao lado do Filho com uma fé tão forte, também nas trevas, sem perder a plena confiança na ação de Deus? Há uma atitude de fundo que Maria assume diante a isso que vem na sua vida. Na Anunciação Ela permanece perturbada escutando as palavras do anjo – é o temor que o homem experimenta quando é tocado pela proximidade de Deus - , mas não é a atitude  de quem tem medo diante disso que Deus pode querer. Maria reflete, interroga-se sobre o significado de tal saudação (cfr Lc 1,29). O termo grego usado no Evangelho para definir este “refletir”, "dielogizeto", refere-se à raiz da palavra “diálogo”. Isto significa que Maria entra em íntimo diálogo com a Palavra de Deus que lhe foi anunciada, não a considera superficialmente, mas se concentra, a deixa penetrar na sua mente e no seu coração para compreender isso que o Senhor quer dela, o sentido do anúncio. Um outro aceno para a atitude interior de Maria frente à ação de Deus o encontramos sempre no Evangelho de São Lucas, no momento do nascimento de Jesus, depois da adoração dos pastores. Afirma-se que Maria “conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19); em grego o termo é symballon, poderíamos dizer que Ela “tinha junto”, “colocava junto” no seu coração todos os eventos que estavam acontecendo; colocava cada elemento, cada palavra, cada fato dentro de tudo e o comparava, o conservava, reconhecendo que tudo provém da vontade de Deus. Maria não para em uma primeira compreensão superficial disso que acontece na sua vida, mas sabe olhar em profundidade, deixa-se levar pelos acontecimentos, os elabora, os discerne, e adquire aquela compreensão que somente a fé pode garantir. É a humildade profunda da fé obediente de Maria, que acolhe em si também aquilo que não compreende do agir de Deus, deixando que seja Deus a abrir a mente e o coração. “Bem aventurada aquela que acreditou no cumprimento da palavra do Senhor” (Lc 1,45), exclama a parente Isabel. É propriamente pela sua fé que todas as gerações a chamarão bem aventurada.

Queridos amigos, a solenidade do Natal do Senhor que em breve celebraremos, convida-nos a viver esta mesma humildade e obediência de fé. A glória de Deus não se manifesta no triunfo e no poder de um rei, não resplandece em uma cidade famosa, em um suntuoso palácio, mas toma morada no ventre de uma virgem, revela-se na pobreza de um menino. A onipotência de Deus, também na nossa vida, age com a força, sempre silenciosa, da verdade e do amor. A fé nos diz, então, que o poder indefeso daquele Menino no fim vence o rumor dos poderes do mundo.

BENEDICTVS PP XVI

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Catequese de Bento XVI: Etapas da Revelação - 12/12/12


CATEQUESE – ETAPAS DA REVELAÇÃO

Sala Paulo VI – Vaticano

Quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Queridos irmãos e irmãs,

Na catequese passada falei da Revelação de Deus, como comunicação que Ele faz de Si mesmo e do seu desígnio de benevolência e de amor. Esta Revelação de Deus se insere no tempo e na história dos homens: história que transforma “o lugar no qual podemos constatar o agir de Deus a favor da humanidade. Ele chega até nós naquilo que para nós é mais familiar, e fácil de verificar, porque constitui o nosso contexto cotidiano, sem o qual não seríamos capazes de entender” (João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 12).
O Evangelista São Marcos – como ouvimos – relata, em termos claros e sintéticos, os momentos iniciais da pregação de Jesus “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo” (Mc 1, 15). Isso que ilumina e dá sentido pleno à história do mundo e do homem começa a brilhar na gruta de Belém; é o Mistério que logo contemplaremos no Natal: a salvação que se realiza em Jesus Cristo. Em Jesus de Nazaré Deus manifesta a sua face e pede a decisão do homem de reconhecê-Lo e de segui-Lo. O revelar-se na história para entrar em relação de diálogo de amor com o homem, doa um novo sentido a todo o caminho humano. A história não é uma simples sucessão de séculos, de anos, de dias, mas é o tempo de uma presença que doa pleno significado e a abre a uma sólida esperança.
Onde podemos ler as etapas desta Revelação de Deus? A Sagrada Escritura é o lugar privilegiado para descobrir os eventos deste caminho, e gostaria – mais uma vez – de convidar todos, neste Ano da Fé, a tomar mais em mãos a própria Bíblia para lê-la e meditá-la e a prestar mais atenção às Leituras da Missa dominical; tudo isso constitui um alimento precioso para a nossa fé.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O FIM DO MUNDO


O FIM DO MUNDO

Dom Fernando Arêas Rifan*

Neste tempo litúrgico do Advento, preparação para o Natal, a Igreja nos convida à mudança de vida, ou seja, à conversão, a “despertarmos do sono” (Rm 13,11), a sairmos da mediocridade, propondo-nos a reflexão sobre as verdades eternas, para, como nos lembrou Bento XVI no Angelus deste domingo, “estarmos prontos para a vinda do Senhor”.

Celebramos duas vindas de Jesus Cristo ao mundo. A primeira, com a sua encarnação, ocorrida historicamente há cerca de dois mil anos. A segunda é o retorno glorioso no fim dos tempos. Como disse o Papa, “esses dois momentos, que cronologicamente são distantes – e não se sabe o quanto -, tocam-se profundamente, porque com sua morte e ressurreição Jesus já realizou a transformação do homem e do cosmo que é a meta final da criação. Mas antes do final, é necessário que o Evangelho seja proclamado a todas as nações, disse Jesus no Evangelho de São Marcos (cf. Mc 13,10). A vinda do Senhor continua, o mundo deve ser penetrado pela sua presença. E esta vinda permanente do Senhor no anúncio do Evangelho requer continuamente nossa colaboração; e a Igreja, que é como a Noiva, a esposa prometida do Cordeiro de Deus crucificado e ressuscitado (cf. Ap 21,9), em comunhão com o Senhor colabora nesta vinda do Senhor, na qual já inicia o seu retorno glorioso”.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Catequese de Bento XVI - 05/12/2012





CATEQUESE

Sala Paulo VI
Quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

 Caros irmãos e irmãs,

            No início de sua Carta aos cristãos de Éfeso (cfr 1, 3-14), o apóstolo Paulo eleva uma oração de louvor a Deus, Pai de Senhor Nosso Jesus Cristo, que nos introduz a viver o tempo do Advento, no contexto do Ano da Fé. Tema deste hino de louvor é o projeto de Deus para o homem, definido com termos plenos de alegria, de admiração e de gratidão, como um “desígnio de benevolência” (v.9), de misericórdia e de amor. 

            Por que o Apóstolo eleva a Deus, do fundo do seu coração, este agradecimento? Porque olha para seu agir na história da salvação, culminado na encarnação, morte e ressurreição de Jesus, e contempla como o Pai celeste nos tenha escolhido antes mesmo da criação do mundo, para sermos seus filhos adotivos, no seu Filho Unigênito, Jesus Cristo (cfr Rm 8,14s.; Gal 4,4s.). Existimos, desde a eternidade em Deus, em um grande projeto que Deus tem mantido em si mesmo e que decidiu implementar e revelar “na plenitude dos tempos” (cfr Ef 1,10). São Paulo nos faz compreender, então, como toda a criação e, em particular, o homem e a mulher não são frutos do acaso, mas respondem a um desígnio de benevolência da razão eterna de Deus que com o poder criador e redentor da sua Palavra dá origem ao mundo. Esta primeira afirmação nos recorda que a nossa vocação não é simplesmente existir no mundo, estar inserido em uma história, e nem somente ser criatura de Deus; é alguma coisa maior: é ser escolhido por Deus, mesmo antes da criação do mundo, no Filho, Jesus Cristo. Nele, então, nós existimos, por assim dizer, desde sempre. Deus nos contempla em Cristo, como filhos adotivos. O “desígnio de benevolência” de Deus, que vem qualificado pelo Apóstolo Paulo também como “desígnio de amor” (Ef 1,5), é definido “o mistério” da vontade divina (v. 9), escondido e ora manifestado na Pessoa e na obra de Cristo. A iniciativa divina antecede cada resposta humana: é um dom gratuito de seu amor que nos envolve e nos transforma.

sábado, 1 de dezembro de 2012

CICLO DO NATAL




MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO

Nos eternos desígnios de Deus, a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade estava decretada em vista do pecado de Adão e Eva, autores do primeiro pecado, aos quais Deus contrapõe Jesus e Maria, respectivamente, autor e medianeira suplicante da vida da graça. 
No período natalício a Virgem Mãe e Cristo Senhor são festejados inseparavelmente. Celebra-se a preparação do mundo para a vinda do Salvador, preparação levada a efeito pelo Eterno Pai no decorrer dos séculos.
Esse período litúrgico compreende:
1)      O Tempo do Advento, que lembra os milênios durante os quais a humanidade esperou a vinda do Messias;
2)      O Tempo do Natal, que recorda o nascimento do Salvador;
3)      O Tempo da Epifania, que recorda as manifestações de Jesus.


Preparação: TEMPO DO ADVENTO

Espera do Messias

Os primeiros traços do Advento encontram-se na Espanha e na França. Em Roma, teve origem sob o Papa Simplício, entre os anos 471 e 483, após os grandes debates cristológicos contra Nestório e Eutiques.
            COMENTÁRIO DOGMÁTICO. – Na liturgia do Advento a Igreja relembra as três vindas de Cristo:
1)      a vinda temporal, que se deu com o nascimento, em Belém, após a longa espera de milênios;
2)      a vinda espiritual de Jesus nos corações, que se dá no curso da vida terrena de toda criatura humana;
3)      a última vinda de Jesus Cristo para o Juízo Final. Será o complemento da obra redentora.
ENSINAMENTO ASCÉTICO. – A vinda temporal de Jesus é um fato passado. Mas, como mistério vivo e real na Eucaristia, tem uma virtude e uma graça especial. No Advento a Igreja quer preparar os fiéis para as graças que o Deus Menino mereceu com seu nascimento.
CARÁTER LITÚRGICO. – O Advento apresenta dois caracteres particulares: o primeiro é de entusiasmo e de anseio confiante pela vinda do Salvador; o segundo caráter é de penitência, e parece predominar sobre o primeiro: manifesta-se pela cor roxa dos paramentos, pelo uso mais moderado do órgão e das flores.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Toda bela sois, Maria, sem a mancha original!



NOVENA DA IMACULADA CONCEIÇÃO
DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA

(Principia a 29 de novembro)

Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém. 

I) Ó mística rosa de pureza, Maria Santíssima, nós nos alegramos convosco por terdes, na vossa Imaculada Conceição, triunfado gloriosamente da infernal serpente, sendo concebida sem a mancha do pecado original.
            Agradecemos e louvamos à Santíssima Trindade que vos concedeu tal privilégio, e vos suplicamos nos alcanceis forças para vencer todas as ciladas do demônio, e nunca manchar a nossa alma com o pecado.
            Ave Maria...
V. Ó Maria, concebida sem pecado.
R. Rogai por nós que recorremos a vós.

II) Ó espelho limpidíssimo de pureza, Maria Santíssima, nós nos alegramos sumamente ao considerar as sublimes virtudes e os dons magníficos que o Espírito Santo infundiu à vossa alma, desde o primeiro momento da vossa Imaculada Conceição.
            Agradecemos e louvamos à Santíssima Trindade que vos cumulou destes privilégios, e vos suplicamos, ó Mãe benigníssima, que, obtendo-nos a prática das virtudes, nos torneis dignos de receber os dons e as graças do Espírito Santo.
            Ave Maria...
V. Ó Maria, concebida sem pecado.
R. Rogai por nós que recorremos a vós.

III) Ó estrela lucidíssima de pureza, Maria Santíssima, nós nos alegramos convosco pelo gozo inefável que tiveram todos os anjos do paraíso com a vossa Imaculada Conceição.
            Louvamos e agradecemos à Santíssima Trindade que vos enriqueceu de tamanho privilégio. Fazei, ó Mãe Santíssima, que também nós um dia possamos tomar parte naquela alegria, e juntamente com os anjos louvar-vos e bendizer-vos por toda a eternidade.
            Ave Maria...
V. Ó Maria, concebida sem pecado.
R. Rogai por nós que recorremos a vós.


V. Toda sois formosa, ó Maria.
R. E mácula original não há em vós.

V. Vós sois a glória de Jerusalém.
R. Vós, a alegria de Israel.

V. Vós, a honra do povo.
R. Vos, advogada dos pecadores.

V. Ó Maria.
R. Ó Maria.

V. Virgem prudentíssima.
R. Mãe clementíssima.

V. Rogai por nós.
R. Intercedei por nós a Nosso Senhor Jesus Cristo.

V. Vós fostes, ó Virgem, imaculada em vossa Conceição.
R. Rogai por nós ao Pai, cujo Filho destes à luz.

Oremos
Ó Deus, que pela Imaculada Conceição da Virgem Maria preparastes a vosso Filho digna morada: nós vos rogamos que, pois a preservastes de toda a mancha, pela previsão da morte de seu mesmo Filho, nos concedais por sua intercessão que também puros até vós cheguemos. Pelo mesmo Cristo, Senhor nosso. Amém. 

Catequese do Papa - Como falar de Deus no mundo hoje - 28/11/2012


CATEQUESE – Como falar de Deus no mundo de hoje

Sala Paulo VI
Quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Caros irmãos e irmãs,


            A pergunta central que hoje nos fazemos é a seguinte: como falar de Deus no nosso tempo? Como comunicar o Evangelho, para abrir estradas na sua verdade salvífica nos corações sempre fechado dos nossos contemporâneos e na mente deles tantas vezes distraídas por tantos estímulos da sociedade? O próprio Jesus, dizem-nos os Evangelistas, no anunciar do Reino de Deus se perguntou sobre isto: “A que podemos comparar o reino de Deus e com que parábola podemos descrevê-lo?” (Mc 4,30). Como falar de Deus hoje? A primeira resposta é que nós podemos falar de Deus, porque Ele falou conosco. A primeira condição para falar de Deus é também a escuta de quanto disse o próprio Deus. Deus falou conosco! Deus não é uma hipótese distante sobre a origem do mundo; não é uma inteligência matemática muito distante de nós. Deus se interessa por nós, nos ama, entrou pessoalmente na realidade da nossa história, se auto-comunicou até encarnar-se. Então, Deus é uma realidade da nossa vida, é tão grande que tem também tempo para nós, ocupa-se de nós. Em Jesus de Nazaré nós encontramos a face de Deus, que desceu do seu Céu para imergir-se no mundo dos homens, no nosso mundo, e ensinar a “arte de viver”, o caminho da felicidade; para libertar-nos do pecado e tornar-nos filhos de Deus (cfr Ef 1,5; Rm 8,14). Jesus veio para salvar-nos e mostrar nos a vida boa do Evangelho.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

São Lúcifer, rogai por nós!



Por Jonatan Rocha do Nascimento

Hoje em dia tem-se uma aversão muito grande ao nome LÚCIFER, pois logo o associamos ao Demônio, Capeta, Satanás, etc., de uma maneira não muito acertada, vez que não há um embasamento para isto.


A palavra lucifer vem do latim lucem ferre e significa “portador da luz” e, biblicamente, refere-se a “estrela da manhã”, a “estrela d’alva”, “aurora”, etc. Senão vejamos: “Et quasi meridianus fulgor consurget tibi ad vesperam, et, cum te caligine tectum putaveris, orieris ut lucifer”, que na tradução quer dizer “o futuro te será mais brilhante do que o meio-dia, as trevas se mudarão em aurora”, que se pode encontrar no versículo 17 do capítulo 11 do Livro de Jó.

A palavra lucifer se repete ainda outras vezes:

Tecum principatus in die virtutis tuae, in splendoribus sanctis, ex utero ante luciferum genui te. (Liber Psalmorum 110,3)Bíblia  Neo Vulgata

No dia de teu nascimento, já possuis a realeza no esplendor da santidade; semelhante ao orvalho, eu te gerei antes da aurora. (Salmo 109, 3) Bíblia Ave Maria

***
Quomodo cecidisti de caelo, lucifer, fili aurorae? Deiectus es in terram, qui deiciebas gentes, (Liber Isaiae 14,  12) Bíblia  Neo Vulgata.

Então! Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora! Então! Foste abatido por terra, tu que prostravas as nações! (Isaías 14, 12) Fazendo menção ao Rei da Babilônia que haveria de ser derrotado.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Catequese de Bento XVI – Racionalidade da fé em Deus – 21/11/2012


CATEQUESE – RACIONALIDADE DA FÉ EM DEUS
Sala Paulo
VI
Quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Queridos irmãos e irmãs,

Avançamos neste Ano da Fé, trazendo em nosso coração a esperança de redescobrir quanta alegria tem no crer e de reencontrar o entusiasmo de comunicar a todos a verdade da fé. Estas verdades não são uma simples mensagem sobre Deus, uma particular informação sobre Ele. Expressam, ao invés disso, o evento do encontro de Deus com os homens, encontro salvífico e libertador, que realiza as aspirações mais profundas do homem, e seus desejos de paz, de fraternidade, de amor. A fé leva a descobrir que o encontro com Deus valoriza, aperfeiçoa e eleva quanto de verdade, de bom e de belo tem no homem. Acontece que, enquanto Deus se revela e se deixa conhecer, o homem vem a saber quem é Deus e, conhecendo-O, descobre a si mesmo, a própria origem, o próprio destino, a grandeza e a dignidade da vida humana.

A fé permite um saber autêntico sobre Deus que envolve toda a pessoa humana: é um “saber”, isto é, um conhecer que doa sabor à vida, um gosto novo de existir, um modo alegre de estar no mundo. A fé se exprime no doar a si mesmo para os outros, na fraternidade que faz solidariedade, capaz de amar, vencendo a solidão que deixa triste. Este conhecimento de Deus através da fé não é por isso somente intelectual, mas vital. É o conhecimento de Deus-Amor, graças ao seu próprio amor. O amor de Deus, então, faz ver, abre os olhos, permite conhecer toda a realidade, além das perspectivas estreitas do individualismo e do subjetivismo que desorientam a consciência. O conhecimento de Deus é, portanto, experiência de fé e implica, ao mesmo tempo, um caminho intelectual e moral: tocados profundamente pela presença do Espírito Santo de Jesus em nós, superamos os horizontes dos nossos egoísmos e nos abrimos aos verdadeiros valores da existência.

Hoje nesta catequese gostaria de me concentrar sobre a racionalidade da fé em Deus. A tradição católica desde o início rejeitou o assim chamado fideísmo, que é a vontade de crer contra a razão. Creio quia absurdum (creio porque é absurdo) não é fórmula que interpreta a fé católica. Deus, na verdade, não é absurdo, mas sim é mistério. O mistério, por sua vez, não é irracional, mas uma superabundância de sentido, de significado, de verdade. Se, olhando para o mistério, a razão vê escuridão, não é porque no mistério não tenha a luz, mas porque existe muita (luz). Assim como quando os olhos do homem se dirigem diretamente ao sol para olhá-lo, veem somente trevas; mas quem diria que o sol não é luminoso, antes a fonte da luz? A fé permite olhar o “sol”, Deus, porque é acolhida da sua revelação na história e, por assim dizer, recebe verdadeiramente toda a luminosidade do mistério de Deus, reconhecendo o grande milagre: Deus se aproximou do homem, ofereceu-se ao seu conhecimento, consentindo ao limite criador da sua razão (cfr Conc. Ec. Vat. II, Cost. Dogm. Dei Verbum, 13). Ao mesmo tempo, Deus, com a sua graça, ilumina a razão, abre-lhe horizontes novos, imensuráveis e infinitos. Por isto, a fé constitui um estímulo a buscar sempre, a não parar nunca e nunca aquietar-se na descoberta inesgotável da verdade e da realidade.  É falso o pré-juízo de certos pensadores modernos, segundo os quais a razão humana seria como que bloqueada pelos dogmas da fé. É verdade exatamente o contrário, como os grandes mestres da tradição católica demonstraram. Santo Agostinho, antes de sua conversão, busca com tanta inquietação a verdade, através de todas aas filosofias disponíveis, encontrando todas insatisfatórias. A sua cansativa investigação racional é para ele uma significativa pedagogia para o encontro com a Verdade de Cristo. Quando diz: “compreendas para crer e creias para compreender” (Discurso 43, 9:PL 38, 258), é como se contasse a própria experiência de vida. Intelecto e fé, antes da divina Revelação, não são estranhas ou antagonistas, mas são ambas duas condições para compreender o sentido, para transpor a autêntica mensagem, se aproximando-se do limite do mistério. Santo Agostinho, junto a tantos outros autores cristãos, é testemunha de uma fé que se exercita com a razão, que pensa e convida a pensar. Neste sentido, Santo Anselmo dirá em seu Proslogion que a fé católica é fides quaerens intellectum, onde o buscar a inteligência é ato interior ao crer. Será sobretudo São Tomás de Aquino – forte nesta tradição – a confrontar-se com a razão dos filósofos, mostrando quanta nova fecunda vitalidade racional vem ao pensamento humano do acoplamento dos princípios e da verdade da fé cristã.

A fé católica é, portanto, racional e nutre confiança também na razão humana. O Concílio Vaticano I, na Constituição dogmática Dei Filius, afirmou que a razão é capaz de conhecer com certeza a existência de Deus através da via da criação, enquanto somente à fé pertence a possibilidade de conhecer “facilmente, com absoluta certeza e sem erro” (DS 3005) as verdades sobre Deus, à luz da graça. O conhecimento da fé, também, não é contra a razão direta. O Beato Papa João Paulo II, de fato, na Encíclica Fides et ratio, sintetiza assim: “A razão do homem não se anula nem se degrada dando assentimento aos conteúdos de fé; estes são em cada caso alcançados com escolhas livres e conscientes” (n. 43). No irresistível desejo de verdade, só um harmonioso relacionamento entre fé e razão é a estrada certa que conduz a Deus e à plena realização de si.
  
Esta doutrina é facilmente reconhecida em todo o Novo Testamento. São Paulo, escrevendo aos cristãos de Corinto, argumenta, como ouvimos: “Enquanto os Judeus pedem sinais e os Gregos procuram sabedoria, nós, em vez disso, anunciamos Cristo crucificado: escândalos para os Judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1,22-23). Deus, de fato, salvou o mundo não com um ato de poder, mas mediante a humilhação de seu Filho unigênito: segundo os parâmetros humanos, o modo inusitado implementado por Deus confronta com as exigências da sabedoria grega. E ainda, a Cruz de Cristo tem sua própria razão, que São Paulo chama: ho lògos tou staurou, “a palavra da cruz” (1 Cor 1, 18). Aqui, o termo lògos indica tanto a palavra quanto a razão e, se alude à palavra, é porque exprime verbalmente isso que a razão elabora. Portanto, Paulo vê na Cruz não um acontecimento irracional, mas um fato salvífico que possui uma racionalidade própria reconhecida à luz da fé. Ao mesmo tempo, ele tem tanta confiança na razão humana, ao ponto de admirar-se com o fato de que muitos, ao ver a beleza das obras realizadas por Deus, persistem em não acreditar Nele. Diz na Carta aos Romanos:“De fato as...perfeições invisíveis [de Deus], ou seja, o seu eterno poder e divindade, vem contemplados e incluidos na criação do mundo através das suas obras” (1, 20). Assim, também São Pedro exorta os cristãos da diáspora a adorar  “o Senhor, Cristo, nos vossos corações, prontos sempre a responder a qualquer um que vos pedir a razão da esperança que está em vós” (1 Ped 3, 15). Em um clima de perseguição e de forte exigência de testemunhar a fé, aos cristãos é pedido justificar com motivações fundadas  a sua adesão à palavra do Evangelho; de dar as razões da nossa esperança.

Sobre essas premissas acerca da ligação fecunda entre compreender e crer, funda-se também o relacionamento virtuoso entre a ciência e a fé. A pesquisa científica leva ao conhecimento da verdade sempre novas sobre o homem e sobre o cosmos, o vejamos. O verdadeiro bem da humanidade, acessível na fé, abre o horizonte no qual se deve mover o seu caminho de descoberta. Deve, portanto, ser encorajada, por exemplo, as pesquisas colocadas à serviço da vida e que visam erradicar as doenças. Importantes são também as investigações para descobrir os segredos do nosso planeta e do universo, na consciência de que o homem está no vertical da criação não para explorá-la sem sentido, mas para protegê-la e torná-la habitável. Assim, a fé, vivida realmente, não entra em conflito com a ciência, mas coopera com essa, oferecendo critérios basilares para que promova o bem de todos, pedindo-lhe para renunciar somente àquelas tentativas que – opondo-se ao projeto originário de Deus – possam produzir efeitos que se voltam contra o próprio homem. Também por isso é racional crer: se a ciência é uma preciosa aliada da fé para a compreensão do desígnio de Deus no universo, a fé permite ao progresso científico realizar-se sempre para o bem e para a verdade do homem, permanecendo fiel a este mesmo desígnio.

Por isso é decisivo para o homem abrir-se à fé e conhecer Deus e o seu projeto de salvação em Jesus Cristo. No Evangelho vem inaugurado um novo humanismo, uma autêntica “gramática” do homem e de toda a realidade. Afirma o Catecismo da Igreja Católica: “A verdade de Deus é a sua sabedoria que rege a ordem da criação e do governo do mundo. Deus que, sozinho, ‘fez o céu e a terra’ (Sal 115,15), pode doar, Ele só, o verdadeiro conhecimento de cada coisa criada na relação com ele” (n. 216).

Confiemos, então, que o nosso empenho na evangelização ajude a dar nova centralidade ao Evangelho na vida de tantos homens e mulheres do nosso tempo. E rezemos para que todos redescubram em Cristo o sentido da existência e o fundamento da verdadeira liberdade: sem Deus, de fato, o homem perde a si mesmo. Os testemunhos de quantos nos antecederam e dedicaram a sua vida ao Evangelho o confirmam para sempre. É racional crer, está em jogo a nossa existência. Vale a pena se gastar por Cristo, somente Ele satisfaz os desejos de verdade e de bem enraizados na alma de cada homem: ora, no tempo que passa, e no dia sem fim da Eternidade bem aventurada

Benedictus PP XVI 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Mostre-me o que o que assinas, que eu te direi quem és!



Por Jonatan Rocha do Nascimento

O Santo Padre, o papa Bento XVI, tem nestes últimos dias insistido que se busque o conhecimento da fé católica por meios corretos e eficazes que propaguem a fé católica e o Evangelho de Nosso Senhor, através de uma responsável utilização da internet e das redes sociais:


A verdade do Evangelho não é algo que possa ser objecto de consumo ou de fruição superficial, mas dom que requer uma resposta livre. Mesmo se proclamada no espaço virtual da rede, aquela sempre exige ser encarnada no mundo real e dirigida aos rostos concretos dos irmãos e irmãs com quem partilhamos a vida diária. Por isso permanecem fundamentais as relações humanas directas na transmissão da fé![1]


Assim, convida-se à evangelização virtual comprometida com a realidade humana, que não descura do trato humano. O que se torna um desafio, uma vez que a interação dos meios nem sempre é possível e, por vezes, uma exclui a outra.

De qualquer forma, há que se empenhar sempre na evangelização, dentro ou fora da grande rede, de modo responsável e, acima de tudo, dando testemunho do que se prega, especialmente aqueles que se propõem a fazê-lo sendo parte integrante do clero, como leigo consagrado, ou ainda, quem busca ter uma vida consagrada a Deus, um vocacionado.

Ocorre que, não raras vezes, nos vemos diante de situações que nos deixam, no mínimo encabulados.

Dada à impessoalidade das redes sociais, e de toda a internet em si, se “conhece” as pessoas através de seus perfis, estes que, por sua vez, indicam preferências, gostos, hobbies, etc. Forma-se, então, o rosto da pessoa a partir do qual cria-se um perfil particular nas mentes dos que se relacionam virtualmente com o usuário e, naturalmente, se tem uma expectativa acerca de suas publicações.

Assim, o que se pode esperar de um religioso além de mensagens bíblicas, reflexões edificantes ou inocentes mensagens de divertimento ou coisas do dia-a-dia? Estas são questões ordinárias que todos estão acostumados a ver e que, instintivamente, aguardamos.

Muitas vezes, porém, nos deparamos com comentários, publicações e fotografias que contradizem a busca de santidade da pessoa em questão que podem, além de escandalizar, provocar diversas consequências trágicas, inclusive, induzir o outro ao pecado. Assim, estes meios de evangelização tornam-se uma faca de dois gumes.

Isto porque, muitas vezes, podem-se esconder os pensamentos do mundo exterior, contudo, por “inocência” ou falta de técnica no manuseio de tais ferramentas a pessoa se expõe de tal modo que põe em risco todo o trabalho que diz promover, levando à descrença de muitos e, muitas vezes, à ridicularização da Igreja.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Mensagem do Papa para a JMJ Rio2013 - 16/11/12










MENSAGEM

Para a XXVIII Jornada Mundial da Juventude

no Rio de Janeiro, em julho de 2013.



16 de novembro de 2012

"Ide e fazei discípulos entre as nações!" (cf. Mt 28,19)

Queridos jovens,

Desejo fazer chegar a todos vós minha saudação cheia de alegria e afeto. Tenho a certeza que muitos de vós regressastes a casa da Jornada Mundial da Juventude em Madri mais «enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé» (cf. Col 2,7). Este ano, inspirados pelo tema: «Alegrai-vos sempre no Senhor» (Fil 4,4) celebramos a alegria de ser cristãos nas várias Dioceses. E agora estamo-nos preparando para a próxima Jornada Mundial, que será celebrada no Rio de Janeiro, Brasil, em julho de 2013.
 
Desejo, em primeiro lugar, renovar a vós o convite para participardes nesse importante evento. A conhecida estátua do Cristo Redentor, que se eleva sobre àquela bela cidade brasileira, será o símbolo eloquente deste convite: seus braços abertos são o sinal da acolhida que o Senhor reservará a todos quantos vierem até Ele, e o seu coração retrata o imenso amor que Ele tem por cada um e cada uma de vós. Deixai-vos atrair por Ele! Vivei essa experiência de encontro com Cristo, junto com tantos outros jovens que se reunirão no Rio para o próximo encontro mundial! Deixai-vos amar por Ele e sereis as testemunhas de que o mundo precisa.

Convido a vos preparardes para a Jornada Mundial do Rio de Janeiro, meditando desde já sobre o tema do encontro: "Ide e fazei discípulos entre as nações" (cf. Mt 28,19). Trata-se da grande exortação missionária que Cristo deixou para toda a Igreja e que permanece atual ainda hoje, dois mil anos depois. Agora este mandato deve ressoar fortemente em vosso coração. O ano de preparação para o encontro do Rio coincide com o Ano da fé, no início do qual o Sínodo dos Bispos dedicou os seus trabalhos à «nova evangelização para a transmissão da fé cristã». Por isso me alegro que também vós, queridos jovens, sejais envolvidos neste impulso missionário de toda a Igreja: fazer conhecer Cristo é o dom mais precioso que podeis fazer aos outros.


1. Uma chamada urgente

A história mostra-nos muitos jovens que, através do dom generoso de si mesmos, contribuíram grandemente para o Reino de Deus e para o desenvolvimento deste mundo, anunciando o Evangelho. Com grande entusiasmo, levaram a Boa Nova do Amor de Deus manifestado em Cristo, com meios e possibilidades muito inferiores àqueles de que dispomos hoje em dia. Penso, por exemplo, no Beato José de Anchieta, jovem jesuíta espanhol do século XVI, que partiu em missão para o Brasil quando tinha menos de vinte anos e se tornou um grande apóstolo do Novo Mundo. Mas penso também em tantos de vós que se dedicam generosamente à missão da Igreja: disto mesmo tive um testemunho surpreendente na Jornada Mundial de Madri, em particular na reunião com os voluntários.

Hoje, não poucos jovens duvidam profundamente que a vida seja um bem, e não veem com clareza o próprio caminho. De um modo geral, diante das dificuldades do mundo contemporâneo, muitos se perguntam: E eu, que posso fazer? A luz da fé ilumina esta escuridão, nos fazendo compreender que toda existência tem um valor inestimável, porque é fruto do amor de Deus. Ele ama mesmo quem se distanciou ou esqueceu d’Ele: tem paciência e espera; mais que isso, deu o seu Filho, morto e ressuscitado, para nos libertar radicalmente do mal. E Cristo enviou os seus discípulos para levar a todos os povos este alegre anúncio de salvação e de vida nova.

A Igreja, para continuar esta missão de evangelização, conta também convosco. Queridos jovens, vós sois os primeiros missionários no meio dos jovens da vossa idade! No final do Concílio Ecumênico Vaticano II, cujo cinquentenário celebramos neste ano, o Servo de Deus Paulo VI entregou aos jovens e às jovens do mundo inteiro uma Mensagem que começava com estas palavras: «É a vós, rapazes e moças de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem, pois sereis vós a recolher o facho das mãos dos vossos antepassados e a viver no mundo no momento das mais gigantescas transformações da sua história, sois vós quem, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento dos vossos pais e mestres, ides constituir a sociedade de amanhã: salvar-vos-eis ou perecereis com ela». E concluía com um apelo: «Construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados!» (Mensagem aos jovens, 8 de dezembro de 1965).
 
Queridos amigos, este convite é extremamente atual. Estamos passando por um período histórico muito particular: o progresso técnico nos deu oportunidades inéditas de interação entre os homens e entre os povos, mas a globalização destas relações só será positiva e fará crescer o mundo em humanidade se estiver fundada não sobre o materialismo mas sobre o amor, a única realidade capaz de encher o coração de cada um e unir as pessoas. Deus é amor. O homem que esquece Deus fica sem esperança e se torna incapaz de amar seu semelhante. Por isso é urgente testemunhar a presença de Deus para que todos possam experimentá-la: está em jogo a salvação da humanidade, a salvação de cada um de nós. Qualquer pessoa que entenda essa necessidade, não poderá deixar de exclamar com São Paulo: «Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho» (1 Cor 9,16).

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano


Catequese de Bento XVI - Caminhos para conhecer Deus - 14/11/2012

                        


Catequese - Caminhos para conhecer Deus 

Ou " As três vias de Ratzinger"


Sala Paulo VI
Quarta-feira, 14 de novembro de 2012



Caros irmãos e irmãs,

Quarta-feira passada refletimos sobre o desejo de Deus que o ser humano traz consigo no profundo de si mesmo. Hoje gostaria de continuar a aprofundar este aspecto meditando brevemente com vocês sobre algumas vias para chegar à consciência de Deus. Gostaria de recordar, no entanto, que a iniciativa de Deus antecede sempre cada iniciativa do homem e, também no caminho para Ele, é Ele primeiro que nos ilumina, nos orienta e nos guia, respeitando sempre a nossa liberdade. E é sempre Ele que nos faz entrar na sua intimidade, revelando-se e doando-nos a graça para poder acolher esta revelação na fé. Não esqueçamos nunca a experiência de Santo Agostinho: não somos nós a possuir a Verdade depois de tê-la procurado, mas é a Verdade que nos procura e nos possui.

Todavia há algumas vias que podem abrir o coração do homem ao conhecimento de Deus, há sinais que conduzem para Deus. Certo, muitas vezes corremos o risco de sermos ofuscados pelo brilho do mundanismo, que nos tornam menos capazes de percorrer tais caminhos ou de ler tais sinais. Deus, porém, não se cansa de procurar-nos, porque nos ama. Esta é uma verdade que deve nos acompanhar cada dia, também se certas mentalidades propagadas tornam mais difícil à Igreja e ao cristão comunicar a alegria do Evangelho a cada criatura e conduzir todos ao encontro com Jesus, único Salvador do mundo. Esta, porém, é a nossa missão, é a missão da Igreja e cada crente deve vivê-la alegremente, sentindo-a como própria, através de uma existência animada verdadeiramente pela fé, marcada pela caridade, pelo serviço a Deus e aos outros, e capaz de irradiar esperança. Esta missão brilha, sobretudo, na santidade à qual todos somos chamados.

Hoje, o sabemos, não faltam dificuldades e provações para a fé, muitas vezes mal compreendida, contestada, rejeitada. São Pedro dizia aos seus cristãos: “Estejam sempre prontos a responder, mas com doçura e respeito, a quem lhe pede a esperança que está em vossos corações”. No passado, no Ocidente, em uma sociedade considerada cristã, a fé era o ambiente em que tudo acontecia; a referência e a adesão a Deus eram, para a maioria das pessoas, parte da vida cotidiana. Pelo contrário, aquele que não acreditava precisava justificar a própria descrença. No nosso mundo, a situação mudou e sempre mais aquele que crê precisa ser capaz de dar razão da sua fé. O Beato João Paulo II, na sua Encíclica Fides et ratio, ressaltava como a fé é colocada à prova também na época contemporânea, atravessada por formas sutis e insidiosas do ateísmo teórico e prático (cfr nn. 46-47). A partir do Iluminismo, a crítica à religião intensificou-se; a história foi marcada também pela presença de sistemas ateus, nos quais Deus era considerado uma mera projeção da alma humana, uma ilusão e o produto de uma sociedade já distorcida por tantas alienações. O século passado conheceu um forte processo de secularismo, em nome da autonomia absoluta do homem, considerado como medidor e artífice da realidade, mas empobrecido do seu ser criatura, “à imagem e semelhança de Deus". Nos nossos tempos, verificou-se um fenômeno particularmente perigoso para a fé: existe, de fato, uma forma de ateísmo que definimos, precisamente, “prático”, no qual não se negam a verdade da fé ou os ritos religiosos, mas simplesmente são considerados irrelevantes para a existência cotidiana, destacados da vida, inúteis. Muitas vezes, então, acredita-se em Deus de modo superficial e se vive “como se Deus não existisse” (etsi Deus non daretur). No final, porém, este modo de viver resulta ainda mais destrutivo, porque leva à indiferença para com a fé e a questão de Deus.

Na realidade, o homem, separado de Deus, é reduzido a uma única dimensão, aquela horizontal, e este reducionismo é uma das causas fundamentais dos totalitarismos que tiveram consequências trágicas no século passado, bem como a crise de valores que vemos na realidade atual. Obscurecendo a referência a Deus, obscureceu-se também o horizonte ético, para deixar espaço ao relativismo e a uma concepção ambígua da liberdade, que em vez de fins libertadores, acaba por amarrar o homem aos ídolos. As tentações que Jesus enfrentou no deserto antes de sua missão pública, representam bem quais ídolos fascinam o homem, quando não vai além de si mesmo. Se Deus perde a centralidade, o homem perde o seu lugar certo, não encontra mais a sua colocação na criação, nas relações com os outros. Não diminui isso que a sabedoria antiga evoca com o mito de Prometeu: o homem acha que pode tornar-se a si mesmo “deus”, mestre da vida e da morte.

Diante deste quadro, a Igreja, fiel ao mandato de Cristo, não cessa nunca de afirmar a verdade sobre o homem e sobre o seu destino. O Concílio Vaticano II afirma sinteticamente: “A maior razão da dignidade do homem consiste em sua vocação à comunhão com Deus. Desde o nascimento, o homem é convidado ao diálogo com Deus: não existiria, na verdade, se não fosse criado pelo amor de Deus, por Ele sempre é conservado por amor, nem vive plenamente segundo a verdade se não O reconhece livremente e não se confia ao seu criador.” (Cost. Gaudium et spes, 19).

Que respostas, então, é chamada a dar a fé, com “doçura e respeito”, ao ateísmo, ao ceticismo, à indiferença para com a dimensão vertical, a fim de que o homem do nosso tempo possa continuar a interrogar-se sobre a existência de Deus e a percorrer os caminhos que conduzem a Ele? Gostaria de mencionar alguns caminhos, que derivam seja da reflexão natural, seja da própria força da fé. Gostaria de resumir para vocês muito sinteticamente em três palavras: o mundo, o homem, a fé.

A primeira: o mundo. Santo Agostinho, que na sua vida procurou longamente a Verdade e foi agarrado pela Verdade, tem uma belíssima e célebre obra, na qual afirma: “Interrogue a beleza da terra, do mar, do ar rarefeito e em toda parte expandida; interrogue a beleza do céu..., interrogue todas estas realidades. Todos te responderão: olhe para nós também e observe como somos belos. A beleza deles é como um hino de louvor. Ora, essas criaturas tão belas, mas mudando, quem as fez se não um que é a beleza de modo imutável?” (Sermo 241, 2: PL 38, 1134). Penso que devemos recuperar e fazer recuperar ao homem de hoje a capacidade de contemplar a criação, a sua beleza, a sua estrutura. O mundo não é um magma disforme, mas quanto mais o conhecemos,  mais descobrimos os surpreendentes mecansimos, mais vemos um projeto, vemos que tem uma inteligência criadora. Albert Einstein disse que nas leis da natureza “revela-se uma razão assim superior que toda a racionalidade do pensamento e das ordens humanas é comparativamente um reflexo absolutamente insignificante” (O Mundo como o vejo eu, Roma 2005). Uma primeira via, então, que conduz à descoberta de Deus é o contemplar com olhos atentos a criação.

A segunda palavra: o homem. Sempre Santo Agostinho, então, tem uma célebre frase na qual diz que Deus é mais íntimo a mim quanto o seja eu a mim mesmo (cfr Confessioni III, 6, 11). Daqui ele formula o convite: “Não ande fora de si, entre em si mesmo: no homem interior habita a verdade” (De vera religione, 39, 72). Este é um outro aspecto que nós corremos o risco de perder no mundo barulhento e distraído em que vivemos: a capacidade de parar e olhar em profundidade para nós mesmos e ler esta sede de infinito que trazemos dentro, que nos impele a andar além e refere-se a Alguém que possa preenchê-la. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu senso de bem moral, com a sua liberdade e a voz do conhecimento, com a sua aspiração ao infinito e à felicidade, o homem se interroga sobre a existência de Deus” (n. 33).

A terceira palavra: a fé. Sobretudo na realidade do nosso tempo, não devemos esquecer que um caminho que conduz ao conhecimento e ao encontro com Deus é o caminho da fé. Quem crê está unido a Deus, está aberto à sua graça, à força da caridade. Assim a sua existência torna-se testemunha não de si mesmo, mas do Ressuscitado, e a sua fé não tem medo de mostrar-se na vida cotidiana, é aberta ao diálogo que exprime profunda amizade para o caminho de cada uma, e sabe abrir luzes de esperança à necessidade de redenção, de felicidade, de futuro. A fé, de fato, é encontro com Deus que fala e opera na história e que converte a nossa vida cotidiana, transformando em nós a mentalidade, juízos de valor, escolhas e ações concretas. Não é ilusão, fuga da realidade, refúgio confortável, sentimentalismo, mas é implicação de toda a vida e é anúncio do Evangelho, Boa Notícia capaz de libertar todos os homens. Um cristão, uma comunidade que seja diligente e fiel ao projeto de Deus que nos amou primeiro, constitui uma via privilegiada para aqueles que estão na indiferença ou na dúvida acerca da sua existência e da sua ação. Isto, porém, pede a cada um para tornar sempre mais transparente o próprio testemunho de fé, purificando a própria vida para que seja conforme Cristo. Hoje muitos têm compreensão limitada da fé cristã, porque a identificam como um mero sistema de crença e de valores e não tanto com a verdade de um Deus revelada na história, desejoso de comunicar com o homem face a face, em um relacionamento de amor com ele. Na realidade, o fundamento de cada doutrina ou valor tem o acontecimento do encontro entre o homem e Deus em Cristo Jesus. O Cristianismo, antes que uma moral ou uma ética, é caso de amor, é o acolher a pessoa de Jesus. Por isto, o cristão e a comunidade cristã devem antes de tudo olhar e fazer olhar para Cristo, verdadeiro caminho que conduz a Deus. Obrigado. 


BENTO XVI

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

As prioridades do MPF/SP: DEUS SEJA LOUVADO!


Por Jonatan Rocha do Nascimento


Deus seja louvado!

Hoje, o Ministério Público do Estado de São Paulo, no exercício de suas funções constitucionais (?), ingressou com ação na Justiça Federal da Seção Judiciária daquele estado, com o mui relevante escopo de retirar de todas as cédulas de real a serem impressas neste país, os quase invisíveis dizeres "DEUS SEJA LOUVADO".

As razões da Procuradoria Regional dos DIREITOS DO CIDADÃO encontram fulcro na laicidade do Estado e da liberdade religiosa no inciso IV do artigo 5º da Carta Magna de 1988, bem como da Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

Na peça inicial, busca-se atacar o preâmbulo da Constituição que se utiliza da expressão “sob a proteção de Deus” para promulga-la, após elencar os princípios norteadores do denominado Estado Democrático de Direito, se afirmando que não há neste trecho vestibular qualquer normatividade que obrigue a todos ou ainda, que seja de repetição obrigatória nas Constituições Estaduais e, menos ainda, que seja inscrita nas cédulas que circulam pelo país afora. 

Pois bem. [Pausa para digerir as informações] 

A notícia em si, já é um grande disparate, mas pior ainda, é pensar que o referido órgão fiscal da lei fala em nome dos DIREITOS DOS CIDADÃOS ou mesmo da Constituição de 88, que lhe confere poderes bem mais específicos, quais sejam: 

Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.

Pergunta: Está o MP/SP atuando para promover “a defesa da ordem jurídica”? E do regime DEMOCRÁTICO? E dos interesses sociais e individuais INDISPONIVEIS? 

Muitos foram os comentários realizados nos canais de notícias e redes sociais e muitos se perguntam atônitos: Não há nada mais importante no Estado de São Paulo a se preocupar?! Não há idosos que precisam de assistência médica, que sofrem por maus-tratos? Será que não há quem necessite da assistência do Ministério Público para ter seus direitos constitucionais indisponíveis garantidos? Menores? Pessoas com desenvolvimento mental incompleto? Índios? 

Poder-se-ia criar inúmeras teses neste ponto, demonstrando que a República não possua uma confissão religiosa oficial, mas fica-se bem evidenciado a serviço de quem se está trabalhando nos últimos tempos. Vide as imbecilidades aprovadas e levadas à Juízo em todo o povo. 

Certo estou de que, por mais débil, ateu, muçulmano, budista, confucionista, hare-krishna ou pseudo-comunistas que sejam, nenhum cidadão brasileiro negou que seu patrão efetuasse o pagamento de seu salário mensal pelo horrendo fato de haver uma minúscula menção a DEUS na nota de R$ 100,00. 

“-O quê?!! Nota com ‘DEUS SEJA LOUVADO’? Não quero! Sou ateu! Fere meu direito de acreditar em nada”!

O dia que isso ocorrer, a insanidade que se apresenta neste dia se justificará, enquanto isso não ocorre só posso dizer: DEUS SEJA LOUVADO! E penso ainda, que quem não quiser uma nota do atual real, fique à vontade para depositá-lo em minha conta ou, usem de sua generosidade para com as minorias e oprimidos e doem todas as cédulas de sua carteira para os pobres, que aceitarão de bom grado estes humildes tostões, sejam bramanistas, taoístas, jainas ou satanistas.

Sem mais.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Catequese de Bento XVI - Desejo de Deus - 07/11/2012






CATEQUESE – Desejo de Deus

Praça São Pedro
Quarta-feira, 7 de novembro de 2012 

Queridos irmãos e irmãs,

O caminho de reflexão que estamos fazendo juntos neste Ano da Fé nos leva a meditar hoje sobre um aspecto fascinante da experiência humana e cristã: o homem traz em si um desejo misterioso de Deus. De modo muito significativo, o Catecismo da Igreja Católica se abre com a seguinte consideração: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair para si o homem e somente em Deus o homem encontrará a verdade e a felicidade que busca sem parar” (n. 27).

Uma afirmação tal que também hoje, em muitos contextos culturais, parece bastante aceitável, quase óbvia, poderia parecer um pouco um desafio no âmbito da cultura ocidental secularizada. Muitos dos nossos contemporâneos poderiam afirmar que não sentem por nada um desejo de Deus. Para grande parte da sociedade Ele não é mais o esperado, o desejado, mas sim uma realidade que passa despercebida, diante da qual não se deve nem sequer fazer o esforço de pronunciar-se. Na realidade, aquilo que definimos como “desejo de Deus” não está de tudo desaparecido e parece (si affaccia) ainda hoje, de muitos modos, o coração do homem. O desejo humano tende sempre a determinados bens concretos, frequentemente desejando tudo menos o lado espiritual, e ainda se encontra diante da interrogação sobre o que seja de fato “o” bem, e também a confrontar-se com alguma coisa que é diferente de si mesmo, que o homem não pode construir, mas é chamado a reconhecer. O que pode de fato satisfazer o desejo humano?

Na minha primeira Encíclica, Deus caritas est, procurei analisar como tal dinamismo se realiza na experiência do amor humano, experiência que na nossa época é mais facilmente percebida como momento de êxtase, de saída de si, como lugar onde o homem sabe que é atravessado por um desejo que o supera. Através do amor, o homem e a mulher experimentam de modo novo, um com o outro, a grandeza e a beleza da vida e do real. Se isso que experimentam não é uma simples ilusão, se de fato quero o bem do outro como via também do meu bem, então devo estar disposto a descentralizar-me, a colocar-me ao seu serviço, até a renúncia a mim mesmo. A resposta à questão sobre o sentido da experiência do amor passa também por meio da purificação e da cura do querer, o que é necessário para o próprio bem que se quer ao outro. Precisamos praticar, treinar, também corrigir, para que aquele bem possa verdadeiramente ser desejado.

O êxtase inicial se traduz assim na peregrinação, “êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para sua libertação na doação de si, e assim para o reencontro de si, e de fato para a descoberta de Deus” (Enc. Deus caritas est, 6). Através de tal caminho poderá progressivamente aprofundar-se para o homem a consciência daquele amor que tinha inicialmente experimentado. E andará sempre mais tecendo o mistério que isso representa: nem sequer a pessoa amada, na verdade, é capaz de satisfazer o desejo que habita o coração humano, de fato, tanto mais autêntico é o amor pelo outro, tanto mais esse deixa em aberto a interrogação sobre sua origem e sobre seu destino, sobre a possibilidade de que isso há de durar para sempre. Assim, a experiência humana do amor tem em si um dinamismo que leva além de si mesma, é experiência de um bem que leva a sair de si e a encontrar-se diante de um mistério que envolve toda a existência.

Considerações semelhantes poderiam ser feitas também a propósito de outras experiências humanas, como a amizade, a experiência do belo, o amor pelo conhecimento: cada bem experimentado do homem vai em direção ao mistério que envolve o próprio homem; cada desejo que tem vista para o coração humano se faz eco de um desejo fundamental que não é nunca plenamente satisfeito. Sem dúvida de tal desejo profundo, que esconde também algo de enigmático, não se pode chegar diretamente à fé. O homem, afinal, conhece bem isso que não o satisfaz, mas não pode imaginar ou definir isso que o faria experimentar aquela felicidade que traz no coração a nostalgia. Não se pode conhecer Deus a partir somente do desejo do homem. Deste ponto de vista surge o mistério: o homem é buscador do Absoluto, um buscador a passos pequenos e incertos. E, todavia, já a experiência do desejo, do “coração inquieto” como o chamava Santo Agostinho, é muito significativa. Essa nos diz que o homem é, no fundo, um ser religioso (cfr Catechismo della Chiesa Cattolica, 28), um “mendigo de Deus”. Podemos dizer com as palavras de Pascal: “O homem supera infinitamente o homem” (Pensamentos, ed. Chevalier 438; ed. Brunschvicg 434). Os olhos reconhecem os objetos quando estes são iluminados pela luz. Daí o desejo de conhecer a mesma luz, que faz brilhar as coisas do mundo e com isso acende o sentido da beleza.

Precisamos, portanto, acreditar que seja possível também na nossa época, aparentemente tanto refratária à dimensão transcendente, abrir um caminho para o autêntico sentido religioso da vida, que mostra como o dom da fé não é absurdo, não é irracional. Seria de grande utilidade, para tal fim, promover uma espécie de pedagogia do desejo, seja pelo caminho de quem ainda não crê, seja por quem já recebeu o dom da fé. Uma pedagogia que compreende pelo menos dois aspectos. Em primeiro lugar, aprender ou re-aprender o sabor das alegrias autênticas da vida. Nem todas as satisfações produzem em nós o mesmo efeito: algumas deixam um traço positivo, são capazes de pacificar a alma, nos tornam mais ativos e generosos. Por outro lado, depois da luz inicial, parecem desiludir as expectativas que tinham suscitado e por vezes deixam dentro de si amargura, insatisfação ou uma sensação de vazio. Educar desde cedo para saborear as alegrias da verdade, em todos os âmbitos da existência – a família, a amizade, a solidariedade com quem sofre, a renúncia ao próprio eu para servir ao outro, o amor pelo conhecimento, pela arte, pela beleza da natureza – tudo isso significa exercitar o sabor interior e produz anticorpos eficazes contra a banalização e achatamento (l’appiattimento) hoje vigentes. Também os adultos têm necessidade de redescobrir estas alegrias, de desejar a realidade autêntica, purificando-se da medíocridade na qual possam encontrar-se enredados. Então se tornará mais fácil deixar cair ou rejeitar tudo isso que, embora aparentemente atrativo, revela-se sem sabor, fonte de vício e não de liberdade. E isso fará emergir aquele desejo de Deus do qual estamos falando.

Um segundo aspecto, que anda de mãos dadas com o anterior (che va di pari passo con il precedente), é o nunca se contentar com o quanto foi alcançado. As alegrias mais verdadeiras são capazes de liberar em nós aquela preocupação saudável que leva a ser mais exigentes – querer um bem mais alto, mais profundo – e junto a perceber com sempre mais clareza que nada de finito pode preencher o nosso coração. Aprenderemos, assim, a tender, desarmados, para aquele bem que não podemos construir ou adquirir com as nossa forças; a não nos deixar desencorajar pelo cansaço ou pelos obstáculos que vêm do nosso pecado.

Neste sentido, não devemos esquecer que o dinamismo do desejo está sempre aberto à redenção. Mesmo quando ele caminha em caminhos extraviados, quando segue paraísos artificiais e parece perder a capacidade de ansear pelo verdadeiro bem. Mesmo no abismo do pecado não se apaga no homem aquela faísca que lhe permite reconhecer o verdadeiro bem, de saboreá-lo, e de começar assim um percurso de subida, no qual Deus, com o dom da sua graça, não faz nunca faltar a sua ajuda. Tudo, aliás, precisamos percorrer um caminho de purificação e cura do desejo. Somos peregrinos para a pátria celeste, para aquele bem pleno, eterno, que nada nos poderá arrebatar (che nulla ci potrà più strappare). Não se trata, portanto, de sufocar o desejo que está no coração do homem, mas de libertá-lo, para que possa alcançar a sua verdadeira altura. Quando no desejo se abre a janela para Deus, isto já é sinal da presença da fé na alma, fé que é uma graça de Deus. Santo Agostinho sempre afirmava: “Com a expectativa, Deus fortalece a nossa vontade, com o desejo amplia a nossa alma e expandindo-o o torna mais capaz” (Comentário à Primeira Carta de João, 4,6: PL 35, 2009).

Nesta peregrinação, sejamos irmãos de todos os homens, companheiros de viagem mesmo daqueles que não creem, de quem está em busca, de quem se deixa interrogar com sinceridade pelo dinamismo do próprio desejo de verdade e de bem. Rezemos, neste Ano da Fé, para que Deus mostre a sua face a todos aqueles que o procuram com coração sincero. Obrigado. 





domingo, 4 de novembro de 2012

A Santa Missa


Uma imagem, vale mais que mil palavras, mas menos ainda que a verdadeira realidade do Excelso Sacrifício! Eis a verdade católica de modo simples e acessível.



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Ofício das Leituras da Solenidade de Todos os Santos


Segunda leitura

Dos Sermões de São Bernardo, abade

(Sermo2: Opera omnia, Edit.Cisterc. 5[1968],364-368)

 (Séc.XII)

Apresemo-nos ao encontro dos irmãos que nos esperam
 Para que louvar os santos, para que glorificá-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes
importam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o mesmo Pai celeste
glorifica? De que lhes servem nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens,
nem lhes vale nossa devoção. Se veneramos os Santos, sem dúvida nenhuma, o interesse é
nosso, não deles. Eu por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo
veemente.

Em primeiro lugar, o desejo que sua lembrança mais estimula e incita é o de gozarmos de sua
tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-
aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos
apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens,
de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos. A
assembléia dos primogênitos aguarda-nos e nós parecemos indiferentes! Os santos desejam-nos
e não fazemos caso; os justos esperam-nos e esquivamo-nos.

Animemo-nos, enfim, irmãos. Ressuscitemos com Cristo. Busquemos as realidades celestes.
Tenhamos gosto pelas coisas do alto. Desejemos aqueles que nos desejam. Apressemo-nos ao
encontro dos que nos aguardam. Antecipemo-nos pelos votos do coração aos que nos esperam.
Seja-nos um incentivo não só a companhia dos santos, mas também a sua felicidade.
Cobicemos com fervoroso empenho também a glória daqueles cuja presença desejamos. Não é
má esta ambição nem de nenhum modo é perigosa a paixão pela glória deles.

O segundo desejo que brota em nós pela comemoração dos santos consiste em que Cristo, nossa
vida, tal como a eles, também apareça a nós e nós juntamente com ele apareçamos na glória.
Enquanto isto não sucede, nossa Cabeça não como é, mas como se fez por nós, se nos
apresenta. Isto é, não coroada de glória, mas com os espinhos de nossos pecados. É uma
vergonha fazer-se de membro regalado, sob uma cabeça coroada de espinhos. Por enquanto a
púrpura não lhe é sinal de honra, mas de zombaria. Será sinal de honra quando Cristo vier e não
mais se proclamará sua morte, e saberemos que nós estamos mortos com ele, e com ele
escondida nossa vida. Aparecerá a Cabeça gloriosa e com ela refulgirão os membros
glorificados, quando transformar nosso corpo humilhado, configurando-o à glória da Cabeça,
que é ele mesmo.

Com inteira e segura ambição cobicemos esta glória. Contudo para que nos seja lícito esperá-la
e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho a intercessão dos
santos. Assim, aquilo que não podemos obter por nós mesmos, seja-nos dado por sua
intercessão.